Quando falamos em autismo, muitas vezes nos perguntamos: “Afinal, quantas crianças estão no espectro?” Um grande estudo publicado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos oferece pistas importantes. Ao acompanhar crianças de 8 anos em 16 regiões norte‑americanas, os pesquisadores descobriram que 1 em cada 31 crianças (32,2 por mil) recebeu diagnóstico de TEA em 2022 – a maior frequência já registrada pelo programa de vigilância.
Entre os meninos, o diagnóstico foi 3,4 vezes mais comum do que entre as meninas (49,2 versus 14,3 por mil), um padrão que se repete em diversos países. Quase 40 % das crianças avaliadas apresentavam também deficiência intelectual, mostrando como o TEA pode vir acompanhado de desafios adicionais no aprendizado.
Outro dado chama atenção: a prevalência já é maior em crianças negras, hispânicas, indígenas, asiáticas e multirraciais do que em brancas. Além disso, em vários locais o autismo aparece com mais frequência em bairros de menor renda. Isso indica que, quando o acesso ao diagnóstico melhora, grupos historicamente subdiagnosticados começam a aparecer nas estatísticas.
A boa notícia é que o diagnóstico está chegando mais cedo. Para a geração nascida em 2018, a chance de receber identificação até os 4 anos foi 1,7 vez maior do que para a geração de 2014. Na Califórnia, a idade mediana do primeiro laudo já caiu para 36 meses. Quando a intervenção começa cedo, as crianças podem desenvolver melhor linguagem, socialização e autonomia.
Por que esses números são importantes para nós?
Planejamento de serviços – Se 1 em 31 crianças norte‑americanas está no espectro, é razoável imaginar que o Brasil também tenha uma quantidade expressiva de pessoas precisando de apoio terapêutico e educacional. A demanda por fonoaudiologia, psicoterapia, terapia ocupacional e acompanhamento escolar tende a crescer.
Equidade no diagnóstico – Os dados mostram que, quando se investe em rastreio universal, populações antes invisíveis surgem nas estatísticas. No Brasil, famílias de menor renda ou que vivem longe dos grandes centros podem enfrentar barreiras ainda maiores para conseguir laudos e terapias.
Importância da identificação precoce – Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de intervenções eficazes. Programas que capacitem pediatras, agentes de saúde e professores a reconhecer sinais de autismo podem reduzir atrasos no diagnóstico.
E no Brasil, qual é a porcentagem?
Até hoje o Brasil não realizou um censo nacional nem possui estudos populacionais amplos que revelem a prevalência de autismo em todo o território. Temos pesquisas regionais e dados de serviços de saúde, mas nada que represente o país como um todo. Por isso, olhar para estudos robustos dos EUA nos ajuda a ter uma noção da magnitude do tema e a pressionar por políticas públicas de levantamento de dados, diagnóstico e assistência.
Enquanto aguardamos números brasileiros confiáveis, essa pesquisa estadunidense serve de termômetro: mostra que o autismo é mais comum do que se imaginava, que o diagnóstico pode (e deve) acontecer mais cedo e que políticas focadas em inclusão e acesso aos serviços fazem diferença. É um convite para que pais, profissionais de saúde, educadores e gestores públicos brasileiros unam esforços na construção de uma rede de apoio que contemple todas as fases da vida da pessoa autista, sem deixar ninguém para trás.


